Retrato de Paulo Serrano, a preto e branco, com óculos escuros onde se reflecte um ginásio.

Paulo Serrano · DigitalDev

Se a tua empresa parasse este fim-de-semana, quem é que sabia o que fazer?

Sou programador há 25 anos e fundador da DigitalDev. Passei mais de duas décadas numa instituição pública de implementação nacional, em projectos de uma escala que poucas empresas privadas alcançam. Aplico esse percurso a um problema muito mais pequeno e muito mais comum: tirar da cabeça de uma pessoa só aquilo que a empresa devia saber fazer sozinha.

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Quem fala

Fundei a DigitalDev e estou envolvido, em regime de parceria, em projectos de outras empresas — a SingularVision e a Codeboys. Emito facturas às onze e meia da noite, acompanho cada cliente de perto e atendo quem precisa de ajuda a um domingo. Não por heroísmo nem por vício do trabalho: quando os processos estão desorganizados, a semana fica curta para tudo o que há para resolver, e o que sobra empurra-se para a noite e para o fim-de-semana. É exactamente isso que ajudo a resolver — para que sobre tempo para viver um pouco do resultado do próprio esforço. Não digo isto para parecer acessível. Digo-o porque sei o que é abrir um negócio e tentar chegar aos objectivos que se traçou.

Há mais de duas décadas que trabalho numa instituição pública de implantação nacional, e foi aí que aprendi o que é optimizar processos a sério: processos que servem milhares de pessoas, integrações entre sistemas de âmbito nacional, plataformas construídas de raiz e mantidas durante anos. Foi essa experiência que me deu a visão do que uma optimização real muda no dia-a-dia de quem faz o trabalho. A diferença de dimensão para uma PME é enorme; a natureza do problema é exactamente a mesma.

Vinte e cinco anos a construir software ensinaram-me menos sobre tecnologia do que sobre a forma como os problemas se disfarçam. Raramente o problema é aquele que me apresentam. Pede-se um relatório novo, e o que falta é o dado estar certo à entrada. Quer-se contratar mais uma pessoa, e o que há é meia semana de trabalho que ninguém devia estar a fazer. Por isso, antes de propor seja o que for, meço: quantas vezes por semana, quantos minutos de cada vez, quantas pessoas passam pelo mesmo papel. Não é glamoroso, e é a única forma de saber se vale a pena mexer — e quanto vale.

Vale quase sempre, porque a conta é implacável. Um passo manual de vinte minutos, três vezes por dia, dá mais de duzentas horas por ano: o equivalente a mês e meio de trabalho de uma pessoa, pago todos os anos, que não aparece em rubrica nenhuma da contabilidade porque está diluído nos salários. Mas o custo recuperado é a parte pequena. A parte grande é a que se deixa de perder — a proposta que demorou três dias a sair e foi para outro, o cliente que desistiu à espera de resposta, a factura que ninguém se lembrou de emitir. E depois vem a capacidade: a mesma equipa a aguentar mais trabalho sem contratar ninguém. É aí que isto deixa de ser poupança e passa a ser margem.

Nenhum destes problemas chega com um pedido de software. Chegam todos com uma frase dita de passagem — «isto leva-me a manhã inteira», «tenho de fazer isto duas vezes», «isto só uma pessoa é que sabe fazer». Ninguém chama a isso um problema; chama-se a isso segunda-feira. E é por não ter nome que dura anos. O que se devolve no fim não é uma ferramenta: é a manhã de volta.

Por isso, quando me chamam para «construir uma coisa», a resposta na maior parte das vezes não passa por construir nada. Passa por mudar dois passos, ou por ligar uma funcionalidade que já estava paga e desligada. Digo-o mesmo quando não me convém — e é essa a razão pela qual vale a pena ouvir-me quando digo que desta vez é mesmo preciso construir.

Reconheces

Nada disto aparece num relatório. Aparece tudo ao sábado.

01

A folha de Excel que só uma pessoa sabe mexer

E essa pessoa está de baixa há três semanas. Ninguém toca naquela folha sem lhe telefonar primeiro.

02

«Confirma-me lá o stock», às 22h de domingo

Porque a única forma de saber o que existe em armazém é perguntar a alguém que também preferia não estar a olhar para o telemóvel àquela hora.

03

O mapa de horas feito à mão, à sexta-feira à noite

Para que o vencimento saia a tempo na segunda. Todas as sextas. Sempre a mesma pessoa.

04

A factura que desapareceu entre o email e o Dropbox

E são agora três pessoas a perguntar umas às outras quem a tinha em mãos.

05

O grupo de WhatsApp que, na prática, é o sistema de gestão

Encomendas, reclamações, avisos de falta — está tudo ali, a rolar para fora do ecrã, e ninguém consegue recuperar o que se disse há dois meses.

06

A pessoa que se despede ao fim de seis anos

E leva consigo, na cabeça, o único mapa completo de como aquilo funciona realmente. Nunca ninguém o escreveu.

Se um sistema só funciona porque uma pessoa se lembra de tudo, isso não é um sistema. É essa pessoa.

Três coisas que já vi

Não são casos de estudo. São terças-feiras.

A folha

Há sempre uma folha que segura a empresa inteira.

Ninguém a desenhou de propósito — cresceu, ano após ano, à custa de uma pessoa que percebeu o problema e o resolveu sozinha. Funciona. Até essa pessoa tirar duas semanas de férias e o telefone não parar de tocar desde o aeroporto. É aí que se descobre o preço real da folha: não é o que custou construí-la, é o que custa não haver mais ninguém que a entenda.

A reunião de sexta

Alguém pergunta quantas encomendas entraram esta semana.

O silêncio que se segue não é hesitação — é procura. Um vai ao email, outro ao WhatsApp, outro telefona ao armazém para perguntar ao colega que apontou num papel. Chega-se a um número dez minutos depois, com uma margem de incerteza a acompanhar. Ninguém questiona porquê. Já todos aceitaram que é assim que a empresa se lembra de si própria.

O caderno

A licença é paga todos os meses, há anos.

Entro no armazém e encontro um caderno pousado ao lado do computador — é ali que se aponta o que interessa. O sistema fica bem nos relatórios; o caderno é que nunca falha. Perguntei porquê. «É mais rápido», responderam-me, sem levantar os olhos. Não estavam a ser preguiçosos. Estavam a ser sinceros.

Secretária coberta de papéis, envelopes, recortes de jornal e post-its, com duas mãos a escrever num teclado no meio da confusão.

A imagem

Um caderno ao lado do computador. Três ficheiros com o mesmo nome e datas diferentes. E alguém a pedir desculpa pela desarrumação antes de me mostrar como aquilo funciona a sério.

É isto que encontro. Não as engrenagens azuis que um banco de imagens devolve quando se escreve «automação» — essas, em 25 anos, nunca vi.

Não é preciso pedir desculpa. É por causa dela que ali estou.

Porque é que eu

Cinco razões que se podem verificar sem acreditar em mim.

01

Continuo a escrever código todos os dias

Não sou um gestor que aprendeu a falar de tecnologia há dois anos. Há 25 anos que construo software e continuo a fazê-lo — não delego a parte que interessa a quem nunca a viveu.

02

Venho de projectos de escala nacional

Mais de duas décadas numa instituição pública de implementação nacional: integrações entre grandes sistemas, processos com milhares de utilizadores, plataformas mantidas ao longo de anos. Trago essa exigência para problemas de outra dimensão.

03

Sou empresário, não tenho apenas uma teoria

Fundei a DigitalDev e trabalho em parceria nos projectos de outras empresas. Emito facturas, acompanho pagamentos em atraso e decido todos os meses onde não vou gastar. Aquilo que te proponho, tive primeiro de o resolver para mim.

04

Trabalho onde o terreno é exigente

Facturação certificada pela Autoridade Tributária, sistemas certificados por entidades governamentais, integrações com ERPs — ArtSoft, PHC, Devlop.System, SAGE — e webservices que ninguém actualiza desde 2006. É esse o terreno onde trabalho todos os dias.

05

Publico o código, não escondo o trabalho

Mantenho pacotes open-source de integrações de facturação, pagamentos e registo de erros. Não é discurso — está público, e qualquer programador pode abrir e verificar como está feito.

Construí para as minhas próprias operações quase tudo o que proponho às outras. Não por convicção — por necessidade.

A parte difícil nunca é escrever código. É a reunião onde alguém admite que ninguém sabe como aquilo funciona.

Como trabalho

Quatro passos. Nenhum deles começa por escolher software.

01

Uma conversa curta, sem apresentação comercial

Explicas-me como aquilo funciona hoje, não como gostarias que funcionasse. Meia hora chega para perceber se faz sentido continuar.

02

Observo o processo por dentro

Sigo o percurso real de um pedido, de uma factura, de um turno — não o fluxograma que existe apenas na cabeça de alguém. Registo onde o tempo se perde e onde a informação se perde com ele.

03

Devolvo um mapa, não uma proposta de software

Escrito em linguagem corrente: o que está a custar tempo, o que se simplifica sem mexer em nada, e o que — esse sim — justifica ser automatizado.

04

A decisão é tua

Podes ficar apenas com o mapa. Podes resolver metade por tua conta. Se quiseres que eu construa a parte que sobra, falamos disso à parte — nunca antes.

O que não faço

É mais útil dizer-te desde já onde é que eu não sirvo.

Não vendo software antes de perceber o processo

Por vezes a resposta certa é alterar dois passos e não adquirir nada. Se for esse o caso, digo-o — ainda que isso encerre a conversa ali mesmo.

Não recomendo apenas aquilo que eu construo

Um mapa que termina invariavelmente em «e agora construo-o eu» é venda disfarçada de diagnóstico. Se a ferramenta certa já existe no mercado, é essa que te indico.

Não faço «transformação digital»

Não aprecio a expressão, não a utilizo, e desconfio de quem a promete numa reunião de uma hora. O que faço é mais discreto e mais útil: retirar horas de cima de uma pessoa.

Não prometo números antes de os medir

Se te indicar uma percentagem ou um «tantas horas por semana» antes de observar o teu processo, estou a inventar. Prefiro medir primeiro e falar depois.

A conversa

Não é uma venda. É meia hora a olhar para o que já tens.

Não sei se aquilo de que a tua empresa precisa é de um sistema novo. Com honestidade, mais de metade das vezes não é. Mas se há algo que te ocupa os sábados e já não devia — uma folha, um caderno, uma pessoa que é a única a saber — conta-me.

Não prometo uma solução. Prometo olhar com atenção antes de dizer seja o que for.

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