Retrato de Paulo Serrano, a preto e branco, com óculos escuros onde se reflecte um ginásio.

Paulo Serrano · DigitalDev

Se a tua empresa parasse este fim-de-semana, quem é que sabia o que fazer?

Sou programador há 25 anos e tenho três empresas que correm sobre processos que desenhei primeiro para mim. Ajudo empresários como tu a tirar da cabeça de uma pessoa só aquilo que a empresa devia saber fazer sozinha.

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Quem fala

Tenho três empresas. Isso quer dizer que também faço facturas às dez da noite, também ando atrás de quem não paga, também abro o portátil ao sábado para uma coisa que devia ter ficado resolvida durante a semana. Não escrevo isto para parecer normal. Escrevo porque é a única credencial que interessa aqui: uso o que construo.

Há mais de 25 anos que escrevo código. Continuo a escrever, todos os dias — não porque falte quem o faça, mas porque é onde vejo as coisas com mais clareza. O resto do trabalho é menos bonito do que parece: facturação certificada, integrações com sistemas que ninguém actualiza desde 2006, processos que uma empresa foi empilhando durante quinze anos e já ninguém sabe explicar porquê.

Na maior parte das vezes que me chamam para "construir uma coisa", a resposta não é construir nada. É mudar dois passos do processo. Digo isso mesmo quando não convém.

Reconheces

Nenhuma destas cenas aparece num relatório. Aparecem todas ao sábado.

01

A folha de Excel que só uma pessoa sabe mexer

E essa pessoa está de baixa há três semanas. Ninguém toca naquela folha sem lhe ligar primeiro.

02

"Confirma-me lá o stock", às 22h de domingo

Porque a única forma de saber o que há no armazém é perguntar a alguém que também gostava de não estar a olhar para o telemóvel àquela hora.

03

O mapa de horas feito à mão, à sexta-feira à noite

Para o vencimento sair a tempo na segunda. Todas as sextas. Sempre a mesma pessoa.

04

A factura que desapareceu entre o email e o Dropbox

E agora são três pessoas a perguntar umas às outras quem é que a tinha.

05

O grupo de WhatsApp que, na prática, é o sistema de gestão

Encomendas, reclamações, avisos de falta — está tudo ali, a rolar para baixo do ecrã, e ninguém consegue procurar nada de há dois meses.

06

A pessoa que se despede ao fim de seis anos

E leva com ela, na cabeça, o único mapa completo de como aquilo tudo realmente funciona. Ninguém o escreveu em lado nenhum.

Se um sistema só funciona porque uma pessoa se lembra de tudo, isso não é um sistema. É essa pessoa.

Três coisas que já vi

Não são casos de estudo. São terças-feiras.

A folha

Há sempre uma folha que segura a empresa toda.

Ninguém a desenhou de propósito — cresceu, ano a ano, à custa de uma pessoa que percebeu o problema e resolveu sozinha. Funciona. Até essa pessoa tirar duas semanas de férias e o telefone dela não parar de tocar desde o aeroporto. Nessa altura descobre-se o preço real da folha: não é o que custou fazer. É o que custa não ter ninguém que a entenda.

A reunião de sexta

Alguém pergunta quantas encomendas entraram esta semana.

Há um silêncio a seguir que não é hesitação — é procura. Um vai ao email, outro ao WhatsApp, outro liga para o armazém a perguntar ao colega que apontou num papel. Chega-se a um número dez minutos depois, com uma vírgula de incerteza a seguir. Ninguém questiona porquê. Já todos aceitaram que é assim que a empresa se lembra de si própria.

O caderno

A licença é paga todos os meses, há anos.

Entro no armazém e há um caderno pousado ao lado do computador — é ali que se apontam as coisas a sério. O sistema fica bonito nos relatórios; o caderno é que nunca falha. Perguntei porquê. "É mais rápido", disseram-me, sem olhar para cima. Não estavam a ser preguiçosos. Estavam a ser sinceros.

O reflexo

Uso óculos escuros por vaidade, como toda a gente. Mas gosto da ideia de que, ao olhar para eles em vez de olhar para mim, se vê o que eu estou mesmo a ver — não o que combinámos dizer que vejo. É esse o trabalho: entrar numa operação e olhar para o que lá está a acontecer, não para o relatório que descreve o que devia acontecer. A diferença entre as duas coisas é onde mora o problema.

Porque é que eu

Cinco razões que se podem verificar sem acreditar em mim.

01

Ainda escrevo código todos os dias

Não sou gestor que aprendeu a falar de tecnologia há dois anos. Há 25 anos que construo software e continuo a fazê-lo — não delego a parte que interessa a quem não a viveu.

02

Tenho três empresas, não uma teoria

DigitalDev, Codeboys e SingularVision são minhas. Também emito facturas, também persigo pagamentos atrasados, também decido onde não vou gastar este mês. O que te proponho, já tive de resolver primeiro para mim.

03

O meu próprio negócio corre nos processos que desenho

CRM, facturação, produção de conteúdo, deploys — não são slides de apresentação, é o que uso todos os dias para trabalhar. Se alguma coisa parasse de funcionar, dava-me conta antes de ti.

04

Trabalho no que é chato a sério

Facturação certificada pela Autoridade Tributária, ligações a transportadoras e a ERPs, webservices que ninguém actualiza desde 2006. Se sobrevivo a isso todos os dias, o teu Excel não me assusta.

05

Publico o código, não escondo o trabalho

Mantenho pacotes open-source de integrações de facturação, pagamentos e registo de erros. Não é discurso — está público, qualquer programador pode abrir e ver como está feito.

Construí para as minhas empresas quase tudo o que proponho às outras. Não por fé — por necessidade.

A parte difícil nunca é escrever código. É a reunião onde alguém admite que ninguém sabe como aquilo funciona.

Como trabalho

Quatro passos. Nenhum deles começa por escolher software.

01

Uma conversa curta, sem PowerPoint

Contas-me como é que aquilo funciona hoje, não como gostavas que funcionasse. Meia hora chega para perceber se faz sentido continuar.

02

Vejo o processo por dentro

Sigo o caminho real de um pedido, de uma factura, de um turno — não o fluxograma que existe só na cabeça de alguém. Anoto onde o tempo se perde e onde a informação se perde com ele.

03

Devolvo um mapa, não uma proposta de software

Escrito em português normal: o que está a custar tempo, o que dá para simplificar sem mexer em nada, e o que — esse sim — vale a pena automatizar.

04

Decides tu o que fazer com isso

Podes ficar só com o mapa. Podes resolver metade sozinho. Se quiseres que eu construa a parte que sobra, falamos disso à parte — não antes.

O que não faço

É mais útil dizer-te já onde é que eu não sirvo.

Não vendo software antes de perceber o processo

Às vezes a resposta certa é mudar dois passos, não comprar nada. Se for esse o caso, digo-o — mesmo que isso feche a conversa ali mesmo.

Não recomendo só o que eu construo

Um mapa que acaba sempre em "e agora construo-te eu" é venda disfarçada de diagnóstico. Se a ferramenta certa já existe pronta no mercado, é essa que te aponto.

Não faço "transformação digital"

Não gosto da expressão, não a uso, e desconfio de quem promete isso numa reunião de uma hora. O que faço é mais chato e mais útil: tirar horas de cima de uma pessoa.

Não prometo números antes de os medir

Se te disser uma percentagem ou um "tantas horas por semana" antes de ver o teu processo, estou a inventar. Prefiro medir primeiro e falar depois.

A conversa

Não é uma venda. É meia hora a olhar para o que já tens.

Não sei se o que a tua empresa precisa é de um sistema novo. Honestamente, mais de metade das vezes não é. Mas se há qualquer coisa que te ocupa os sábados e já não devia — uma folha, um caderno, uma pessoa que só ela sabe — conta-me.

Não prometo uma solução. Prometo olhar com atenção antes de dizer alguma coisa.

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